segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Svadyaya(autoconhecimento) e o "velho baú"...

Decidir que o nosso sádhana ultrapasse as paredes de uma sala de prática requer observação permanente ao que e como sentimos, pensamos, agimos. Questionar e tentar compreender as limitações que roubam um sentimento de plenitude é tudo menos uma perda de tempo, totózisse, e coisa de gente desocupada como ouço algumas vezes. Hoje percebo que não é solução para transcender tais limitações, fugir, fingir, camuflar, esquecer, e optar por "deixar para lá"! Percebo que essas coisas nunca são tarde para se resolverem e compreenderem! Percebo que não se trata de uma mera imaturidade ou de "coisinhas" típicas de uma menina adolescente! Tem factos que precisam mesmo sair daquele "velho baú"...
Desenvolver um estado de plenitude requer uma relação harmoniosa com o seu corpo, com os padrões dos seus pensamentos e sentimentos, requer emoções estáveis e clareza mental. Como se sentir plena quando não se está em paz com o seu corpo? Porque desejamos seios fartos, seios pequenos, seios firmes? Porque olhamos com desdém o nosso nariz que não corresponde ao mentalmente padronizado como belo? Porque dizer que gostava do nariz pequeno, a boca carnuda, os olhos rasgados? Porque surge o complexo, a vergonha e a necessidade de se auto estimar? E quem já prestou atenção de como tudo isto influencia a nossa acção? Agora eu pergunto, é coisa para não se valorizar? É coisa que não merece o tempo necessário para se compreender? 
Como se sentir plena quando não se está em paz com a nossa atitude perante a vida, as pessoas, a natureza, o mundo? Porque se deseja o otimismo, o brilho no olhar, o brilho no sorriso, a doçura e amor nas palavras e gestos? Porque se chora, sofre, anseia e desespera? 
Agora eu pergunto, é coisa para "deixar para lá"? 
Não, não creio! 
Olhar e aceitar as nossas "totózisses" é o primeiro passo em direcção à transcendência de um ser egóico, que tende a se identificar com tudo o que a sua mente assimilou ao longo das suas experiências de vida, da cultura, dos princípios e valores transmitidos. Por exemplo, qual a nossa relação com o nu? De onde vem a vergonha e constrangimento? Se tivéssemos nascido numa qualquer tribo Indígena certamente teríamos outra relação com o nosso corpo. Talvez olhássemos para ele não apenas como algo capaz de seduzir, atrair e dar prazer mas como algo que é divino e inteligente! E aí pouco importavam os seios pequenos ou nariz grande (risos)! 
Viver no ciclo vicioso, fechar os olhos à nossa realidade e compensar frustrações é caminhar com um sorriso forçado, aparente auto estima e segurança, em direcção à doença, ao cansaço! É deitar fora a oportunidade que a vida nos dá de sentir e perceber algo que existe dentro de nós, que se encontra fechado pela chave da ignorância. 
     
     

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Metafóricamente pensando ...

Se anseio? Anseio sim...anseio sem ansiedade...
Que o Sol que há em mim brilhe...
Que seus raios trespassem os meus olhos, o meu sorriso, os meus gestos e palavras...
Nos dias de céu limpo...
Nos dias de céu escuro e nublado...
Que ele aqueça o meu coração...
Que ele ilumine minha mente...
Que se ponha e volte a nascer todos os dias da minha vida...


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A "longa metragem" de Moksha...

Quando adoptamos uma postura de espectadores dos variadíssimos trabalhos cinematográficos da nossa mente, tendemos em querer encontrar o fio condutor que permita apreciar a arte sem todo um envolvimento emocional. Questionamos quem é o ator principal neste filme da busca pela libertação, pelo   autoconhecimento, pela paz, superação? Porque o deseja? Percebemos que é a própria mente, com o seu ego, capacidade de desejar e discernir. Em algum momento ela decidiu querer acabar com os seus sofrimentos, alcançar luz, paz e plenitude. Ela torna-se a actriz principal da sua própria produção, neste filme da busca pela libertação. É longo e o final não tem fim...
Enquanto assisto, posso perceber tamanhas dificuldades, obstáculos e desafios na hora de apreciar a arte sem envolvimento. Como o sentimento do eu é forte, o apego, as impressões, as tendências, os desejos, as expectativas...mas persisto, permaneço, pratico e confio. E assim vou aprendendo o como desprezar o valor dos resultados em prol da paciência e devoção. O como me libertar dos anseios não expectando. O como de me auto-controlar e ajustar...
Entretanto vai rodando a longa metragem (risos) 

Namastê 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A consciência dum Eu egóico...


Hoje dou comigo a pensar em todas as coisas que tenho lido, ouvido e aprendido. Saber da possibilidade de viver um estado de yoga onde reina a plena paz, a plena consciência, o conhecimento e sabedoria das coisas, que nos permite sentir o que é a pura felicidade e alegria permanente, é deveras aliciante. Ouvir falar que a nossa identificação com os pensamentos é um tal de ego e que ele é responsável pelo sofrimento, pela confusão mental, pelos medos, pelas sensações de ansiedade, inadequação, inquietude, carência, insatisfação, descontentamento, incompletude, necessidade de busca incessante, parece nos dar a resposta para todos os problemas. Saber disso por si só, já implica uma espécie de alivio…afinal nós não somos tudo aquilo, afinal está nas nossas mãos a possibilidade de transformar, mudar, controlar, compreender. Mestres e sábios colocam à nossa disposição a forma, o caminho de chegar até esse conhecimento através de suas obras, trabalho e experiência. É possível rever nossas limitações, nossos padrões de pensar, sentir e agir. Suas explicações sobre a limitada condição humana, assim como todas as técnicas e estratégias capazes de transcender tal, fazem o maior sentido! Ouvi-los é quase música para nossos ouvidos, paz para o nosso coração, luz para a nossa cabeça!
Mas… a transformação interior não acontece apenas ouvindo ou percebendo o enorme sentido das suas palavras…é necessário experimentar, praticar! Então, trabalhamos a capacidade de estar atento e consciente a cada atitude, pensamento, sentimento e emoção. Desenvolvemos a capacidade de estar presente e aprendemos a nos observar.
Esse processo de observação, auto análise e conhecimento nem sempre traz consigo os sorrisos mais rasgados. Ganhar consciência do quê, como, porque penso e sinto, por vezes dói. E dói porque quando me olho nos olhos não sou o resultado da expectativa que criei! Dói, porque até mesmo do caminho capaz de apaziguar ansiedades, medos, frustrações e insatisfações, expectamos! Dói, porque percebemos a tamanha dificuldade de contentamento no insucesso e escassez. Dói, porque percebemos o quanto nosso pensamento está padronizado com a necessidade de reconhecimento, competição, valorização, boa fama! Doí, porque percebemos a dimensão das nossas carências, das nossas limitações. Doí, porque é um Eu, quem caminha, quem se submete a um diagnóstico, quem quer a mudança, a transformação, o saber, a libertação!

Namastê

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O astanga vinyasa yoga e a transcendência do ego...

Num primeiro momento, e quando ouvimos falar que o yoga implica transcendência do ego, não percebemos nem o como, nem o porquê. Criamos uma espécie de resistência, tememos a mudança, a descoberta. Queremos a força, a flexibilidade, a saúde, o equilíbrio, a harmonia, a qualidade de vida e a paz interior de preferência continuando a fazer as mesmas coisas, o que se gosta, o que dá prazer, o que é moda, o que alimenta a nossa "falsa" auto estima, o que momentaneamente é capaz de curar a nossa insegurança, a nossa inquietude, o nosso vazio existencial. Tendemos a querer o yoga igual a todas as outras coisas que nos apresentam como fontes de energia, saúde e qualidade de vida. Uma actividade holística que trabalha corpo e mente proporcionando o equilíbrio. E assim se vai praticando yoga por esse mundo fora.
Quando me comprometi em vivenciar o método de astanga vinyasa yoga, tal como me estava a ser transmitido, várias foram as questões, dúvidas e conflitos. Primeiro surgiu como um desafio igual a tantos outros outrora experienciados, como agachar com 80 kg, ou aprender qualquer sequência de body combat, body pump, body jam, ou aprender a dançar o samba, o merengue, aprender a cantar ou tocar uma determinada música, com a diferença de acreditar que tal havia de me trazer equilíbrio permanente. Expectativas foram criadas, sim! Os dias de prática foram passando. Muitas foram as vezes que questionei o porquê de tal disciplina, o porquê de submeter o meu corpo àquela prática, àquele método. Porquê tudo aquilo em prol de uma mente calma e equilibrada? É um processo difícil e exigente! A vontade de fugir é muita e está sempre à espreita. Achamos que não fomos concebidos para tal, que somos fracos demais, que não está ao nosso alcançe tal proeza. E é aí que tudo começa...no meio do conflito! Acabamos por perceber a importância de não criar expectativas e simplesmente aceitar, entregar e confiar. Começamos a perceber o nosso ego, aprender a observá-lo e de forma bem gentil, a tentar transcender a sua natureza.
Como alcançar este conhecimento sem experienciar a disciplina, o rigor, o método tal como ele foi concebido? Como desenvolver a capacidade de discernir? Como compreender e sentir o estado do nosso corpo? Como ouvir o nosso coração? Perceber as nossas emoções?
É o hábito, a rotina, a concentração e atenção, a presença, a atitude, o foco! É o permitir-se estar consigo mesmo! Observar o seu silêncio!
Hoje mesmo, e refletindo sobre a minha prática pessoal pude perceber que é natureza do meu ego a vontade de que toda a disciplina traga seus frutos! Tendo a criar expectativas, sim! Com relação à prática e evolução fisica! Cabe a mim adotar uma atitude que contrarie tal desejo e ambição! E é isto que acho mágico, inteligente, poderoso nos valores e princípios do yoga, que fazem dele algo muito diferente de outra actividade qualquer. É certo que competição e ambição trazem consigo a vontade de empenho e dedicação mas também a possibilidade de frustração e sofrimento. O que convenhamos ser um desperdício de energia, um desgaste físico e emocional.
Hoje percebo como um corpo que tem as suas limitações e o seu tempo de transformação pode nos levar à compreensão e aceitação do nosso ego e como é possível transcendê-lo...mantendo-se firme, disciplinado, confiando e agradecendo cada momento vivido! Respeitando e aceitando nossa condição fisica e emocional a cada instante!
Constato que é uma atitude baseada em determinados  principios e valores propostos pelo yoga, que o fazem ser algo bem diferente de todo um conjunto de actividades que promovem a saúde. E nem sempre essa atitude é transmitida e valorizada quando se o pratica por esse mundo fora, lamentavelmente. Para além de empobrecer tal experiência, rouba a possibilidade de conhecer outras dimensões, tão valiosas, do ser.

Namastê    


         

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Identificar vásanas...um grito de liberdade...

"O Yoga explica a vida consciente, em parte, como conseqüência do inconsciente. Todas as nossas experiências, fatal e fielmente, são gravadas numa espécie de "fita de gravação", através de ininterrupta introjeção. O que introjetamos ou gravamos nos plásticos abismos do inconsciente são: vásanás (tendências, inclinações, impulsos, motivações...) e samskáras (impressões, representações, imagens, juízos...). Lá do fundo, esse conteúdo comanda o nosso comportamento dito voluntário e consciente; comanda o que somos, queremos, sentimos, dizemos, fazemos e pensamos.
Conforme as introjeções que fazemos no curso da vida, tal será nosso destino. Quem introjeta espinho, conseqüentemente será espetado.
Assim esclarecidos, deveríamos, por interesse profilático, selecionar as impressões e tendências que introjetamos, com o mesmo critério com que um dietista escolheria sua refeição num cardápio, visando a que, nos dias de porvir, possam elas (as escolhidas) operar em proveito da saúde e não contra ela; em direção à liberdade e não à servidão; em prol de nossa felicidade e não em seu prejuízo.
A indiscriminada, inconsciente e indisciplinada introjeção de vásanás e samskáras polui, adoece, corrompe, perturba, vicia e infelicita a mente. O yogin, sabendo disso, procura acautelar-se. Evita fisicamente as que pode e, mentalmente, aquelas que, fisicamente, lhe são impostas pelo ambiente.
Seu cuidado não é apenas na área da higiene mental, mas também na fase da cura.
Nesse particular, em que consiste a cura?
Em depurar, liberar, aclarar e aprimorar o mental. O Ashtanga Yoga ou Yoga dos oito componentes, codificado pelo sábio Patañjali, é uma forma técnica de sanear a mente, não a mente que costumamos chamar de doente, mas a mente que costumamos chamar de normal e que, em verdade, é "normalmente" incapaz para a felicidade e para o alcance da Verdade. Agitada como é, tecida de conflitivos desejos, encabrestada pelo egoísmo, sacudida de paixão, obcecada pelo irreal e condicionada a fatores múltiplos, o que chamamos de mente normal não deixa de ser, inclusive, um obstáculo para a percepção da Verdade."
                                                                           Por José Hermógenes

Ter conhecimento de tais conceitos (vásanas e samskáras) e perceber como fazem tanto sentido, já é um passo em direção à transformação mental...e tal como a transformação fisica, requer aceitação, prática, disciplina, consciência ativa a cada momento, a cada movimento, compaixão, persistência, estratégia, compreensão e uma genuína vontade de superar e transcender. A técnica de pratipaksha bhavana, de adotar pensamentos opostos ao que é negativo, ajuda na reprogramação mental. Analisar pensamentos e atitudes a cada momento e contrariar o que se apresenta nocivo ao nosso bem estar e paz, é poderoso na construção de novos padrões de pensamentos, sentimentos, emoções e ações. 
Os vásanas e samskáras estão lá sempre à espreita, sempre dispostos a te tramar! Muitas vezes não que eles tenham uma carga de maldade e ruindade! Por vezes basta que sejam recheados de encanto, fantasia e romance...quem já não idealizou um amor, um relacionamento? Quem já não achou que determinada pessoa a complementaria? Quem já não se identificou com alguém e sentiu vontade de permanecer para o resto da vida junto a ela? E quem já não deixou que tudo isto fizesse parte do pensamento e se reprimisse por ele? Sofresse por ele?
E o que tudo isso traduz efetivamente? Um coração cheio de amor para dar ou um coração cheio de carências que se apega? Devemos dar voz e seguir este coração? Não creio...
Isto é um mero exemplo de como vásanas são poderosos na hora de produzir pensamentos e como isso influência a nossa "saúde" fisica, mental e a nossa ação.  A "faxina", a "limpeza" começa de dentro para fora. O brilho e alegria dum olhar e sorriso são o espelho do que pensamos e sentimos!
Permitir-se observar, analisar, compreender e decidir "lutar" por mudar, já é um grito de liberdade! 

Namastê



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Krishna diz a Arjuna...

" Estando firme no yoga, faça ações abandonando o apego, tendo a mesma atitude frente ao sucesso e ao fracasso. Ó Arjuna, a atitude de equilibrio é chamada yoga."

"Quando a sua mente, atormentada com declarações dos Vedas, ficar livre de agitação e firme no Atma, então você alcançará yoga."

E Arjuna pergunta:

"Qual a descrição da pessoa cujo conhecimento é firme e está estabelecido em Atma? Como a pessoa de conhecimento firme fala, sente e anda?"

"Arjuna, quando um individuo deixa de lado todos os desejos que entram em sua mente, estando satisfeito em si mesmo, através de si mesmo, então é dito que seu conhecimento é firme."

"Aquela pessoa isenta de desejo, medo e raiva, livre da sede por prazeres, não afetada por situações adversas e cujo conhecimento é firme, é chamada de sábia."

Estou a ter mais uma oportunidade de ouvir os ensinamentos contidos em Bhagavadgita!
Como diz a professora Gloria Arieira, "Gita fala diretamente ao coração das pessoas. As dúvidas e dificuldades de Arjuna em relação a si próprio e à melhor maneira de se conduzir na vida, são as mesmas de todos nós."
Incrível como milhares de anos passam e esta obra cabe nas nossas vidas, nas nossas ações! Quem a estuda e lê identifica-se com as dúvidas, medos, desejos e conflitos de Arjuna. É uma oportunidade para aprender a se autoconhecer e como ter uma vida de equilíbrio e pura felicidade.
O Yoga ganha outra dimensão quando estudamos estas obras sagradas. Deixa de ser só uma prática de posturas fisicas que trazem alinhamento, flexibilidade, força, energia. Deixa de ser só um exercício respiratório que equilibra as emoções. Deixa de ser só uma técnica de relaxamento que nos permite vivenciar momentos de paz interior. Trata-se de toda uma conduta que permite a possibilidade de paz, felicidade e plenitude, permanente, em cada umas das ações na vida.
Quando há uma predisposição para entender tais valores fica fácil concluir que eles são lógicos! A tarefa difícil será sempre a ação! As tendências do nosso ego são fortes! O poder dos nossos sentidos é imenso! A estimulação externa é constante! Estar atento, consciente e com toda a capacidade de discernimento em cada ação, é um verdadeiro desafio!
O ásana, a meditação, o mantra, os pranayamas são instrumentos de trabalho que preparam a mente para receber tal conhecimento.
Como praticante de astanga vinyasa yoga posso perceber que é possível sim, caminhar nessa direção de consciência, autoconhecimento, autocontrole e discernimento. Algumas transformações na atitude, forma de estar na vida, forma de agir e ser, são notáveis! Caminhar em direção ao estado de yoga é real!
O primeiro passo será mesmo a motivação pessoal em querer ativar esse estado...

Namastê