quinta-feira, 23 de abril de 2015

Reflexão # 44 - Ser Criança...


Focar em observar, sentir a criança, prestando atenção às suas palavras, ao seu olhar, ao que a incomoda e atormenta, permitindo que expresse o seu contentamento, descontentamento, tristeza ou alegria, é um passo na direcção de uma relação harmoniosa, saudável, equilibrada e feliz. Constato que é maior a preocupação e necessidade em se fazer ouvir, notar, respeitar e obedecer. Agarramo-nos às tarefas, aos objectivos, metas a cumprir e esquecemo-nos que para tudo isso ser executado com verdadeira eficiência, a criança precisa sentir-se escutada, atendida, compreendida, acolhida. Até mesmo na acção mais cruel. Ao invés de punir, conduzir ao entendimento do impacto daquele acto na sua vida, na vida das pessoas e no todo. Se desejamos crianças e jovens responsáveis porque lhes roubamos de tenra idade essa oportunidade? Será que nós somos efectivamente responsáveis? Que conceito temos de responsabilidade? Em que medida eu sou responsável? Porque cumpro os meus deveres e obrigações? E na hora de apontar o dedo ao outro, de fazer da minha vida um mar de lamuria ou vestir incessantemente o papel de vitima? O que efectivamente estou a fazer? A ser responsável pela minha vida, com o tudo que faz parte dela, ou a colocá-la nas mãos de outro? É interessante debruçar-se sobre tal e perceber como a minha ausência de disponibilidade em olhar, sentir e compreender a criança é proporcional àquela que tenho com relação a mim mesma. Como posso estar disponível internamente, capaz de acolher, tolerar, sem questionar os meus incómodos, frustrações, expectativas? Porque é tão importante a criança ser de determinado modo, à imagem daquilo que eu acredito ser aceite, valorizado, reconhecido? Se prestarmos atenção isso apenas lhes rouba a sua espontaneidade, simplicidade, naturalidade. Óbvio que a criança vai se insurgir, gritar e manifestar na sua forma de expressão o tanto que lhe é roubado e que a afasta da sua natural amorosidade, gentileza, delicadeza, doçura.
Talvez tenhamos que as olhar mais vezes nos olhos…
Talvez tenhamos que lhes mostrar mais o como sentimos…
Talvez tenhamos de lhes dar a mão e contar-lhes como são imensas, belas e suaves além das suas palavras e gestos, tantas vezes chamadas de cruéis, feias, más…
Talvez tenhamos de lhes falar menos sobre o que é ser bem-educada e dar lugar a toda a acção que a faz compreender a sua natureza simples e generosa…
Talvez tenhamos de estar mais ao invés de querer demais…
Talvez tenhamos de olhar a nossa criança interior… 
Talvez tenhamos de lhe dar voz…
Um abraço…
Amor e compreensão…
E assim… talvez possamos ver com toda a clareza como a criança sofre num mundo que a todo o momento a castra… num mundo tão voltado para comparações, competitividades que camuflam o potencial de verdadeiros talentos, o potencial da capacidade inata de criar, imaginar, construir…um mundo com tanta beleza para se viver e descobrir mas perdido em futilidades, superficialidades…
Hoje enquanto dava uma aula de yoga, e observando uma criança que não me estava a ouvir porque completamente absorvida na sua fantasia e imaginação, pensei: O que será efectivamente melhor? Deixá-la finalizar a sua história ou fazer com que me ouça, chamando pela sua atenção? Naquele momento, e de certa forma maravilhada com a sua expressão de felicidade, achei por bem que finaliza-se.
Observando o que me rodeia constato que é tanta a preocupação de fazer tudo certinho e direitinho que a criança acaba por ser uma marioneta nas mãos dos adultos... e o pior é que ela para além de não entender o teatro, sente que ele não vai ao encontro daquilo que necessita, nem tão pouco da sua real natureza… se pudéssemos ler pensamentos talvez fossemos presenteados com:
“Porque ela me agarra desta forma no braço? O que estou a fazer de errado? Porque é errado? Eu só estava a brincar, a descobrir? Alguém me explica? Estes adultos são loucos!" 
É importante ter consciência que mesmo eu querendo que a criança me escute não é com um gesto de autoridade que o vai fazer…para além disso ela ignora a nossa necessidade, o nosso sentimento quando não o faz.
Expor os factos deste modo é contribuir verdadeiramente na educação de uma criança. Permitir que seja hábil na hora de lidar com as suas emoções e consequentemente permitir um relacionamento saudável, responsável e equilibrado consigo mesma e demais.
Vale a pena experimentar. Vale a pena dar-se a oportunidade e sentir a gratificação de uma filha que se vira para a mamã e diz” tenho vontade de te bater mas não quero”, ou “estou triste mas não sei porquê” ou “ mamã veste rápido, rápido…estou muito ansiosa para brincar” ou “mamã estás feliz comigo?”
Vale a pena dar a mão a uma criança e mostrar que não há nada de errado com ela… que crescer é assim mesmo… um tumulto de sensações, emoções, sentimentos com as quais aprendo a reconhecer-me simples e amoroso.
Om
Sónia.
 


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